SÓ GOZO COM QUEM DÁ

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O ANALFABETO INTELECTUAL

François Silvestre
Essa figura é pródiga nos tempos da globalização. A “cultura” fácil do Google, textos variados e resumidos dos blogs, a leitura corrida semelhante aos sanduiches que substituem os pratos feitos ou a pedido.

A descoberta de informação, antes pouco acessível, sobre tantos e variados temas, dá a impressão de bagagem cultural. Não precisa mais queimar pestanas nos clássicos da literatura ou filosofia. Tá tudo enlatado. Cultura em compotas. Cultura aqui na acepção de conhecimento acumulado.

As citações e máximas, dos grandes nomes, aí estão ao alcance dos dedos. Basta teclar. Não precisa ir à fonte. A fonte se derrama nos computadores. Mesmo que venha com água turva. Toldada de transparência espelhosa. Clorada de incorreções. Fluorada de vaidade. E pedindo novas informações aos consulentes. Aí a porca torce o focinho e morde o rabo.

A eletrônica esnobando o papel. Cronistas itinerantes da vulgaridade, vendendo sabedoria aos comentaristas iluminados. Todo mundo é professor de variedades, sem seleção de assuntos. Todo mundo ensina tudo. Quase ninguém aprende nada. Pra que aprender? O bom mesmo é ensinar. É muito mais charmoso ser mestre do que discípulo. Mestres que nunca tiveram mestres. Infusos. Colegas do Cristo, de Sócrates, de Platão, de Aristóteles, de Heráclito, de Dante, de Da Vince, de Marx, de Shakespeare, de Dostoievski, de Tolstoi, etc. Dessa patota toda, que agora é da mesma docência dos internautas.

E assim como toda frivolidade, quanto mais luminoso melhor. Alumioso, como Sinésio, nas porteiras de Taperoá. Donde o circo cede lugar aos assistentes. O trapezista perdeu o emprego, o palhaço perdeu a graça. Tá tudo aos montes nas telinhas dos navegantes. Tempestade de ondas desespumadas, calmaria de instrução. E ainda o amparo de ventríloquos.

Quando aparece um ou outro texto com algum miolo, passa despercebido. Porém, se o assunto é baixaria ou maledicência, aí os comentaristas se refestelam na masturbação galante das taras. Iguais a mosquitos em manga podre. No meio disso tudo, o assassinato da pobre fulô do Lácio. Analfabeto intelectual gosta do inglês, que é a língua da quitanda universal. Com todo respeito à língua de Chaucer, que não é o mesmo inglês dos navegantes cujo timão é um rato. Imagine o que diria Borges, que negou a Neruda o direito de escrever na língua de Próspero.

Leio e participo de alguns blogs. Pouquíssimos. Não é exigência excessiva, é escassez de paciência. O jeito é cantar Florentina, Florentina, Florentina de Jesus...

Estão apostando no fim do livro. Até porque não precisa carregar o computador debaixo do sovaco. Basta o ratinho no queijo da cultura furada.

Blogs e revistas eletrônicas me parecem as revoadas de andorinhas, nas cidades do interior. Ao fim da tarde, tomam o resto do sol e escurecem as ruas. Depois, aquietam-se nas árvores e nas torres da igreja maior. Ao amanhecer, já se foram, deixando na praça o cagadeiro da noite.
Té mais.

2 comentários:

  1. Ainda bem que não sou um bode intelectual
    Me mais!

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  2. Ótimo, Bode. você é o cara. E não Lula. Abraço e saudade de François Silvestre.

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